Apresentação

O que Chrétien de Troyes, Fiódor Dostoiévski, Gustave Flaubert, Machado de Assis, Charles Baudelaire, Jean-Luc Lagarce, Mário de Andrade e Roland Barthes têm em comum? A dificuldade em responder a essa pergunta advém da grande distância temporal e/ou espacial entre muitos dos autores mencionados. Apesar disso, eram esses os nomes estudados por pesquisadores que se reuniram em 2006 dando origem ao GELLE (Grupo de Estudos Literatura Loucura Escritura). O que justifica tal reunião, diante de tão grande diversidade de objetos?

Inicialmente, o gosto pela literatura e pela teoria e crítica literárias parecia um elemento suficientemente forte para adunar em torno de reuniões periódicas essas pessoas com interesses aparentemente tão díspares. Nesses encontros, discutiam-se textos teóricos considerados indispensáveis para profissionais que se dedicassem a refletir sobre a prática literária e sobre a construção de um lugar crítico. Liam-se, comentavam-se e criticavam-se igualmente as produções dos próprios membros do grupo, finalizadas ou em andamento.

No entanto, com o avanço das discussões, começaram a surgir questões que pareciam evidenciar a fragilidade desse agrupamento, a começar pela seguinte: como escolher uma leitura teórica de interesse comum se as questões que preocupam cada pesquisador são tão diferentes, fruto da diversidade dos próprios objetos de pesquisa?

Curiosa e paradoxalmente, esses questionamentos começaram a revelar o inesperado: estudos dedicados a objetos tão distantes no tempo — quanto um poema narrativo do século XII e o teatro francês contemporâneo — aproximam-se justamente quando se põe em dúvida a possibilidade de diálogo entre os pesquisadores responsáveis por eles, em nome do respeito à especificidade de cada produção. Assim, apesar de se dedicarem ao estudo de obras absolutamente distintas quanto ao gênero e a seus contextos de produção, tanto o especialista em teatro contemporâneo quanto o estudioso da poesia dita “medieval” se veem diante da mesma questão. Inicialmente, como dito, o ponto de intersecção e de interlocução entre os membros do grupo fora o interesse pela literatura. Ora, um poema do século XII e um texto teatral de qualquer época podem ser considerados “literários”?

Embora o termo latino litteratura existisse desde a Antiguidade, o modo pelo qual o entendemos é absolutamente moderno, havendo portanto uma diferença conceitual entre o que ele designa hoje e a realidade que compreendia no século XII. Não podemos nos esquecer de que as situações de produção, circulação e recepção de obras na chamada Idade Média, de um lado, e, de outro, no período posterior à consolidação da Literatura como instituição — na passagem do século XVIII para o século XIX — diferem enormemente. Não se produzem obras a partir das mesmas motivações, nem com a mesma finalidade, nem segundo os mesmos critérios nos dois recortes temporais mencionados. As obras também não são partilhadas do mesmo modo, isto é, não circulam da mesma maneira nos dois contextos. Finalmente, o público de cada uma dessas épocas, ao dedicar sua atenção a obras produzidas por seus contemporâneos, não buscava nelas as mesmas coisas. Diante disso tudo, não podemos aplicar às produções anteriores aos meados do século XVIII o termo “literatura” sem incorrer em anacronismo.

Bem, mas os textos antigos não se extinguiram com as sociedades que os produziram e os receberam num primeiro momento. Eles chegaram até nossa contemporaneidade e nós nos relacionamos com eles literariamente. Que postura deve adotar ao estudioso desses textos para superar essa aparente contradição?

Quanto ao texto teatral, embora nada impeça que seja saboreado por meio de uma leitura silenciosa e individual, em princípio ele consiste numa parte de um todo, ou seja, em apenas um dos muitos elementos que constituem uma performance. O texto teatral, na montagem de uma peça, pode ser permanentemente ressignificado pelas escolhas do diretor, pelo trabalho dos atores, pela iluminação, pelo cenário (ou por sua ausência), pela música (ou por sua falta) e mesmo pelas reações diversas esboçadas pelo público de cada performance — sempre única. Assim, seria legítimo estudar como “literatura” algo que, na realidade, é apenas um dos elementos constitutivos de uma outra arte?

Não podemos, no entanto, ignorar o fato de que, muitas vezes, só podemos nos relacionar com determinadas peças literariamente. Em nosso país, se fizermos questão de entrar em contato com Ésquilo, Sófocles ou Eurípides unicamente frequentando teatros, corremos o risco de esperar muito tempo até ver nosso desejo realizado. Do mesmo modo, um brasileiro conhecedor da língua de Racine dificilmente poderá ver no Brasil a montagem de uma peça do tragediógrafo francês em sua língua original, ou seja, só poderá ver Racine pelo filtro da língua portuguesa. Assim, muitas vezes, só nos resta nos relacionarmos com as peças de teatro literariamente. E, se pensarmos que mesmo a didascália — texto portanto que não aparecerá na montagem da peça — é tão ricamente trabalhada por certos autores como Beckett, que nelas chega mesmo a acomodar rimas internas (!), isso não nos autorizaria a imaginar que esse texto não visa apenas à mise en scène, mas também — e, talvez, sobretudo — à leitura?

Foi a partir desse tipo de reflexão — que coloca em questão não apenas o objeto da pesquisa, mas a própria postura do pesquisador — que os membros do Grupo de Estudos Literatura Loucura Escritura julgou pertinente e produtivo oferecer esses seminários ao público universitário. Por que “seminários”? Em primeiro lugar, por sua íntima relação com o verbo “semear”, mas não no sentido de que pretendamos plantar ideias nossas e já estabelecidas. Diferentemente de um “conteúdo” fechado, o que pretendemos semear é a prática da reflexão e do autoquestionamento por parte do crítico. Em segundo lugar, no sentido de que “seminário” é o meio no qual algo se origina e a partir do qual pode vir a se propagar. Nossa expectativa é de que esses encontros não apenas nos ajudem a refletir sobre nossas questões como grupo de pesquisa, mas também de que, neles, novas questões surjam, podendo dar margem a novas pesquisas e/ou novas posturas críticas por parte do público ouvinte e mesmo dos professores convidados.

O formato mais apropriado para isso pareceu-nos o de conferências mensais, num total de quatro, seguidas de debate com o público. No quinto mês, os quatro conferencistas são convidados a se reunir para responder aos questionamentos dos membros do GELLE em sessão aberta.

 

Luís Cláudio Kinker Caliendo

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